quinta-feira, 29 de julho de 2010

Moda Beleza Juventude

(Adriana Avellar)

Enquanto aguardam, folheiam revistas. Duas amigas de longa data. De longa data, melhor não dizer. Duas amigas que se conhecem bem. Clarice e Beatriz.

– Ele é bom mesmo? – pergunta Beatriz, mais ansiosa.
– Maravilhoso! É super in. Clientela antenada. – responde Clarice, com a tranquilidade de quem tem mais experiência no assunto.
– Tomara que seja mesmo. Já perdi as contas de quantas vezes tive que trocar. E o pior é que quando isso acontece, eles ficam com raiva.
– É mesmo. Outro dia, encontrei um ex numa festa. Ele percebeu.
– Mas também você com esse visual totalmente... diferente!
– Pensei que ele fosse me matar.
– Diante de você assim, era mais fácil ele se matar! E esse novo aí? É confiável mesmo? Só vim porque você insistiu.
– Tá sempre pesquisando. Conhece todos os lançamentos europeus e americanos. E ainda inova. Você pode encomendar a coleção completa. O bacana é que ele cria de acordo com sua personalidade: te fotografa inteira e faz um monte de perguntas. Quer saber tudo sobre você.
– Tudo?!? – pergunta Beatriz com um leve, mas indisfarçável tom de pânico.
– A idade, talvez ele não pergunte - apressa-se a amiga. - Ele diz que o importante é a idade da imagem.
– Ele é dos meus! Sem apego à cronologia - suspira a outra, num claro alívio.
– Mas ele também aceita sugestões. Pode escolher idéias. Essa revista aqui é bárbara para isso. Vê essa foto!
– Quem é essa aqui, a terceira à direita?
– Essa não! Essa mulher é cafooooona.
– Cafona eu nem digo. Só acho que tá acabada!
– Como não é cafona? Olha isso aqui!
– Isso aí é o cúmulo da vanguarda: um vestido do Alexandre Herchcovitch. Da nova coleção. Você não é fiel à moda? Como não sabe disso?
– Quem disse que eu tô falando do vestido?
– Tá falando de quê, então?
– Dos peitos, ora.
– Mas eles nem estão caídos!
– Ah, estão caídos sim. Caíram de moda faz tempo. Esse peito melancia não se usa deste a estação retrasada.
– Pra mim, se estão firmes...
– Firmes? Que adianta um peito firme num formato tão antigo? Nem é releitura retrô. Parece de brechó! Ela já tinha que ter trocado a prótese!
– Ela não usa prótese. Dizem que nunca fez sequer uma única cirurgia plástica. Olha as rugas, que horror!
– Achei que era tendência.
– Deixou assim de propósito. Nada de lifting nem botox nem bioplastia. E sabe qual o maior sonho dela? Posar para as lentes do André Gardenberg!
– É algum fotógrafo de moda que eu não conheço?
– Ele gosta de registrar a realidade. Tipo o Sebastião Salgado. Só que ao invés de clicar pobre, ele fotografa rugas. O livro dele se chama “Arquitetura do Tempo”, com um monte de gente chique exibindo rugas: Fernanda Montenegro, Dorival Caymmi, Chico Buarque. Até a Malu Mader.
– Ruga está na moda? Será que eu vou ficar bem com rugas de expressão aqui na testa? Ou é melhor pés-de-galinha?
– Tá louca?!?
– Se for moda...
– Velhice nunca vai estar na moda! Eu fujo de seguro de carro com desconto progressivo pela idade pra ninguém me perguntar de quanto é o desconto e, com isso, calcular minha idade.
– Olha esse nariz aqui, que show!
– Vai mudar o nariz também?
– Vou ter que mudar tudo! Não quero nenhum vestígio deste visual.
– Também, ô louca, radicalizou!
– Mas enquanto estava na moda, aproveitei bastante.
– Mas não tem nem seis meses que você virou homem!
– Virei homem não, aderi ao visual andrógino.
– E agora vai ser obrigada a se virar pelo avesso de novo.
– Claro. Agora, o chique é um corpo de formas ultra-femininas, com curvas generosas e um toque renascentista. Vou pedir um discreto ar vintage: seios de pera, bumbum redondo, sorriso de Monalisa, em lábios de Angelina Jolie.
– A boca de Angelina Jolie está de volta?
– Claro! E adotar criança africana também.
– Mas não tem um ano, a moda era adotar meninas chinesas, que os pais verdadeiros abandonavam porque queriam menino.
– Mas a China já inspira outra moda: pés pequenos.
– Nossa, mas justo agora que você colocou essa prótese pra aumentar o tamanho do pé, quando virou homem..., quer dizer, adotou o visual andrógino.
– Fazer o quê? A moda nos exige certo sacrifício.
– A juventude é que nos exige sacrifícios! O que eu gostei da atual tendência é a pele de porcelana. Rejuvenesce e a gente fica parecendo uma boneca. Essa mulher aqui, por exemplo, sempre jovem!
– Também, o marido vive fazendo lipo-escultura nela! Deve ser bárbaro ser mulher de cirurgião plástico.
– É o mesmo que se casar com a fórmula da eterna juventude.
– Ela é o cartão de visitas do marido. Já pensou que máximo? Quer dizer, desde que ele não seja jornalista de escândalos... “Essa aqui é minha primeira fofoca. Transava pelada numa praia da Espanha”.
– E se for advogado então? Essa aqui é meu primeiro processo. Ia pegar 30 anos, mas reduzi para pena alternativa. Serviços comunitários.
– Mas quando se é casada com um cirurgião...
– Plástico. Porque se for de coração, não vale a pena. Nem de cabeça.
– Mas se o marido é cirurgião plástico... Olha essa foto aqui. Você podia experimentar algo assim, uma coisa mais radical, exuberante, vanguarda.
– Querida, eu sou básica. Apenas odeio pelanca. Deviam lançar uma taxa pra quem abana pelanca quando dá tchau. Eu sempre...

O assunto é interrompido pela chegada do cirurgião, que gentilmente vem recebê-las na antessala. Cumprimentos e apresentações depois, estão os três no consultório, com a amiga mais experiente avaliando o projeto de sua cirurgia, uma mudança radical. Ela mal consegue disfarçar a ansiedade, mas algo lhe parece familiar.
– Tem certeza que este estudo é individual? - pergunta ao especialista.
– Evidentemente! - responde ele, quase impaciente.
– Não tirou de nenhuma revista?
– Isso é uma ofensa.
- Eu detestaria encontrar uma mulher numa festa com o rosto igual ao meu.
- Eu só trabalho com Haute Chirurgie. Exclusividade absoluta! – ressente-se o cirurgião..
– Mas esse rosto não me é estranho.
– Deixa eu ver, amiga.

Agora é Beatriz quem analisa o projeto. Vira daqui, vira dali.

– Eu também conheço esse rosto! Acho que tem umas rugas a mais em relação ao original.
– Ruga é trend, minha cara! – retruca o médico.
- Não consigo lembrar...
– Faça um esforço! Onde você viu esse rosto e esse corpo? – implora Clarice.– Era um pouco mais novo. O rosto, com certeza.
– Ok, mas de onde você o conhece? Responde por favor! – desespera-se.
– Da foto de nossa formatura!, grita, pelo que ela chamaria epifania. Esse era o seu visual nos anos 90, antes da primeira cirurgia plástica!

FIM